sábado, 31 de maio de 2008

Imaculada Conceição da Maria 150 anos de Proclamação do Dogma


Imaculada Conceição da Maria 150 anos de Proclamação do Dogma


Por Frei Clarêncio Neotti, O.F.M
Estamos diante de um mistério. Ou seja: diante de um fato que nossa inteligência, por ser conhecidamente limitada, não consegue abranger nem explicar por inteiro. O mistério não contradiz a razão humana, mas a excede.
O privilégio da Imaculada Conceição não se refere ao fato de Maria de Nazaré ter sido virgem antes, durante e depois do parto de Jesus. Não se refere ao fato de ter ela concebido o filho sem o concurso de homem, mas por obra e graça do Espírito Santo. Não se refere ao fato de Maria não ter cometido nenhum dos pecados que nós costumamos fazer, confessar e nos esforçamos por evitar. Refere-se ao fato de Deus havê-la preservado da mancha com que todas as criaturas humanas nascem, mancha herdada do pecado cometido por Adão e Eva.

A teologia chama esta mancha de "pecado original". Original, não porque nascemos como fruto de um ato sexual. Mas original, porque se refere à origem de toda a humanidade, ou seja, aos nossos primeiros pais, que a Bíblia chama de Adão e Eva.
A Sagrada Escritura ensina-nos que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança. Não o fez por necessidade, mas num gratuito gesto de amor. Criado por amor, o ser humano estava destinado a uma plena e eterna comunhão com Deus.

Comunhão tão íntima e divina, que o próprio Filho de Deus dela poderia participar sem nenhuma diminuição de sua divindade.
Ora, para o Filho de Deus encarnar-se, Deus havia escolhido desde sempre uma mulher e a havia imaginado santíssima, ou seja, adornada com todas as qualidades e belezas do próprio Deus. Para Deus, imaginação e criação é a mesma coisa.
Aconteceu, no entanto, o grande transtorno: nossos primeiros pais, apesar de feitos à imagem e semelhança de Deus, eram criaturas e como criaturas dependiam do Criador. Sua liberdade era a plenitude da liberdade como criaturas. Adão e Eva pecaram, querendo passar da liberdade e santidade de criaturas à liberdade e santidade do Criador, ou seja, quiseram igualar-se a Deus. Pecado de orgulho. Um pecado de desobediência à condição de criaturas, querendo a condição do Criador. Eles quiseram "ser como Deus" (Gn 3,5). Eles quiseram comportar-se como Deus e não como criaturas de Deus.
A Sagrada Escritura fala das conseqüências dramáticas dessa prepotência dos nossos primeiros pais: embora mantendo a dignidade de imagem e semelhança de Deus, perderam, como diz São Paulo "a graça da santidade original" (Rm 3,23), passaram a ter medo de Deus, perderam o equilíbrio de criaturas, ou seja, foram tomados pelas más inclinações e passaram a sentir em sua consciência a desarmonia e a tensão entre o bem e o mal e a experiência da terrível necessidade de optar entre um e outro, e "a morte entrou na história da humanidade" (Rm 5,12).
Ora, os planos de Deus, ainda que as criaturas os desviem ou quebrem ou não os queiram, acabam se realizando.
Aquela mulher imaginada (criada) por Deus antes do paraíso terrestre, para ser a Mãe do Filho em carne humana, estava isenta do pecado de Adão e Eva. Há, porém, uma verdade de fé professada pela Igreja, que ensina que todas as criaturas humanas são redimidas, sem exceção, exclusivamente pelos méritos de Jesus Cristo.

Ora, Maria é uma criatura e não uma deusa. Por isso, também ela deveria ter sido redimida por Jesus.
Os teólogos discutiram durante séculos sobre como Maria poderia ter sido remida. Nunca, nenhum santo Padre duvidou da santidade de Maria, de sua vida puríssima, de seu coração inteiramente voltado para Deus, ou seja, de ser uma mulher "cheia de graça" (Lc 1,28). Mas, ainda que a pudessem imaginar imaculada, havia teólogos que não conseguiam argumentos teológicos suficientes para crê-la isenta do pecado original. Um deles, por exemplo, foi São Bernardo, autor de belíssimos textos sobre Nossa Senhora, insuperável na descrição da maternidade divina de Maria.
Entre os teólogos favoráveis à imaculada conceição de Maria devemos mencionar o Bem-aventurado Duns Scotus, que argumentava assim: Deus podia criá-la sem mancha, porque a Deus nada é impossível (Lc 1,37); convinha que Deus a criasse sem mancha, porque ela estava predestinada a ser a Mãe do Filho de Deus e, portanto, ter todas as qualidades que não obnubilassem o filho; se Deus podia, se convinha, Deus a criou isenta do pecado original, ou seja, imaculada antes, durante e depois de sua conceição no seio de sua mãe.
Em 1615 encontramos o povo de Sevilha, na Espanha, cantando pelas ruas alguns versos, derivados do argumento de Duns Scotus: "Quis e não pôde? Não é Deus / Pôde e não quis? Não é Filho. / Digam, pois, que pôde e quis".
Também os artistas entraram na procissão dos que louvavam e difundiam a devoção à Imaculada. Nenhum foi tão feliz quanto o espanhol Murillo, falecido em 1682. A ele se atribuem 41 diferentes quadros da Imaculada, inconfundíveis, sempre a Virgem em atitude de assunta, cercada de anjos, a meia lua sob os pés, lembrando de perto a mulher descrita pelo Apocalipse: "revestida de sol, com a lua debaixo dos pés" (Ap 12,1).

A lua, por variar tanto, é símbolo da instabilidade humana e das coisas passageiras. Maria foi sempre a mesma, sem nenhum pecado.
"No entanto, escreve o Santo Padre Pio IX, era absolutamente justo que, como tinha um Pai no céu, que os Serafins exaltam como três vezes santo, o Unigênito tivesse também uma Mãe na terra, em quem jamais faltasse o esplendor da santidade.

Com efeito, essa doutrina se apossou de tal forma dos corações e da inteligência dos nossos antepassados, que deles se fez ouvir uma singular e maravilhosa linguagem. Muitas vezes se dirigiram à Mãe de Deus como a toda santa, a inocentíssima, a mais pura, santa e alheia a toda mancha de pecado, ... mais formosa que a beleza, mais amável que o encanto, mais santa que a santidade, ... a sede única das graças do Santíssimo Espírito, sendo, à exceção de Deus, a mais excelente de todos os homens, por natureza, e até mesmo mais que os próprios querubins e serafins. E para a decantarem os céus e a terra não acham palavras que lhes bastem" (Ineffabilis Dei, 31).
No dia 8 de dezembro de 1854, o bem-aventurado Papa Pio IX declarou verdade de fé a conceição imaculada de Maria. O dogma soa assim: "Pela inspiração do Espírito Santo Paráclito, para honra da santa e indivisa Trindade, para glória e adorno da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica e para a propagação da religião católica, com a autoridade de Jesus Cristo, Senhor nosso, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e nossa, declaramos, promulgamos e definimos que a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, foi preservada de toda mancha de pecado original, por singular graça e privilégio do Deus Onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador dos homens, e que esta doutrina está contida na Revelação Divina, devendo, portanto, ser crida firme e para sempre por todos os fiéis" (Ineffabilis Dei, 42).
Estamos celebrando os 150 anos do dogma. Mas a devoção à Imaculada é muito antiga. Basta lembrar que a festa é conhecida já no século VIII. Desde 1263, a Ordem Franciscana celebrou com muita solenidade a Imaculada Conceição, no dia 8 de dezembro de cada ano e costumava cantar a Missa em sua honra aos sábados. Em 1476, o Papa Xisto IV colocou a festa no calendário litúrgico da Igreja. Em 1484, Santa Beatriz da Silva, filha de pais portugueses, fundou uma Ordem contemplativa de mulheres, conhecidas como Irmãs Concepcionistas, para venerar especialmente e difundir o privilégio mariano da Imaculada Conceição de Maria, Mãe de Deus.
Desde a proclamação do dogma, a festa da Imaculada Conceição passou a ser dia santo de preceito.
Em Roma, na Praça Espanha, para perenizar publicamente a declaração do dogma, levantou-se uma belíssima e trabalhada coluna encimada pela estátua da Imaculada Conceição. Todos os anos, no dia 8 de dezembro à tarde, o Papa costuma ir à Praça e com o povo romano e os peregrinos reverenciar o privilégio da imaculada conceição da santíssima Virgem, privilégio que deriva de seu título maior: ser a Mãe do Filho de Deus Salvador.
Nem quatro anos depois de proclamado o dogma, em Lourdes, na França, à menina Bernardete, simples e analfabeta, que perguntava insistentemente à visão quem era ela, recebeu como resposta, cercada de terníssimo sorriso: "Eu sou a Imaculada Conceição".
Não podemos esquecer que a estátua de Nossa Senhora Aparecida é uma Imaculada Conceição e por isso mesmo seu título oficial é Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Como é bonito, piedoso e comovente escutar o povo brasileiro cantando uníssono: Viva a Mãe de Deus e nossa / sem pecado concebida! / salve, Virgem Imaculada, / ó Senhora Aparecida!
Consagração de Maria a Deus

A piedade popular sempre quis Maria muito perto de Deus. Por isso a faz ser apresentada no Templo aos três anos de idade e lá permanecer até os 12, aos cuidados das virgens que teciam e recamavam o grande véu do Templo, que separava a nave da sala chamada "Santo dos Santos", onde se guardava a Arca da Aliança. Esse véu era grande, grosso, todo bordado de ouro e tão pesado que se precisavam 300 sacerdotes para transportá-lo, quando necessário.
Os escritos que falam da consagração de Maria no Templo datam do segundo século, ou seja, são tão antigos quanto os Evangelhos, que silenciam por inteiro sobre os pais e parentela, sobre o nascimento, a infância e a adolescência de Maria. Que seus pais se chamassem Joaquim e Ana, o sabemos também desses escritos, chamados Apócrifos, precisamente de um livro intitulado "Protoevangelho de Tiago".
Os escritos antigos (não os Evangelhos) divergem, quando falam do lugar de nascimento de Maria. Uns a fazem nascer em Belém, para ligá-la com mais certeza à descendência de Davi, cuja família e parentela eram de Belém, onde nascera o próprio rei Davi. Outros sugerem Nazaré, como seu lugar de nascimento, já que a Anunciação aconteceu em Nazaré (Lc 1,26) e lá Maria tinha casa própria, quando recebeu a mensagem do Arcanjo Gabriel. No entanto, os escritos mais antigos, como o Protoevangelho de Tiago, a dão por nascida em Jerusalém, no lado norte da cidade, perto da piscina Probática. Encontramos essas informações também nos diários dos peregrinos cristãos do segundo século.
Essas lendas, nascidas da piedade popular, são verossímeis, isto é, podem ser históricas, porque, de fato, no Templo, trabalhavam as "virgens tecelãs" ou "virgens bordadeiras", sob a responsabilidade dos levitas. As moças eram devolvidas à família aos 12 anos, quando, pela Lei, tornavam-se maiores de idade e podiam casar-se.
Além do mais, nenhum outro lugar seria mais indicado a Maria, predestinada a ser a mãe de Jesus, do que o Templo, coração do povo, lugar reconhecido por todos como o escolhido pelo próprio Deus para se fazer presente na comunidade e dela receber o louvor e a glória. E tudo toma grande sentido, se nos lembrarmos que Jesus seria o novo templo de Deus na terra, o novo coração do povo (Ap 21,22). Ornamentando ou tecendo o grande véu, que escondia dos olhos comuns a Arca da Aliança, Maria se preparava para ser a nova Arca, abrigando em seu útero bendito o Filho de Deus. A ladainha lauretana, que cantamos em nossas igrejas, a chama de "Arca da Aliança".
É bonito imaginar Maria-menina, tecendo o sagrado véu do Templo, quando sabemos que ela teceu as roupas de Jesus, sobretudo aquela túnica inteiriça, sem costura, que Jesus vestia ao ser crucificado e que foi sorteada entre os soldados-algozes no Calvário (Jo 19,23).
É até comovente imaginar Maria no Templo, trabalhando desde a mais tenra infância, com as coisas sagradas, ela que daria carne e sangue à mais sagrada das criaturas, ao "primeiro de todas as criaturas", como chama São Paulo a Jesus, àquele que é a imagem visível do Deus invisível (Cl 1,15).
Mais tarde, Jesus vai impor aos discípulos o abandono da casa dos pais, da família e de todos os bens temporais como condição ideal de seguimento perfeito (Mt 10,37-38; Mt 19,29). Maria antecedeu-se a todos, porque deixou a casa, os pais, tudo. Há uma lógica muito grande na piedade popular, que a consagra a Deus, como a mais perfeita discípula, desde os primeiros anos de vida.
Como costuma acontecer, a lógica e a devoção popular transformam-se em piedade e liturgia. Desde os primeiros séculos, celebrou-se a consagração de Maria no Templo, embora, repito, nada digam a respeito os Evangelhos. Muito cedo, celebrou-se na Igreja do Oriente a festa da "Entrada da Santíssima Mãe de Deus no Templo" e a esse título dedicou-se no ano 543 uma Basílica em Jerusalém. No Ocidente, ou seja, na Igreja romana, a festa tomou o nome de "Apresentação da Bem-aventurada Virgem Maria". O Papa Xisto V, em 1585, introduziu a festa no calendário universal, no dia 21 de novembro, data em que a festa sempre fora celebrada.
Evidentemente, Maria teve de ser instruída e educada.

Teve de aprender a ler e compreender os salmos, os profetas, os livros sapienciais e o das Leis. Tudo isso ela deveria transmitir a seu filho, depois. Não temos nenhum escrito que fale de uma consagração explícita de Maria nem ao serviço do Templo nem a Deus diretamente. Mas sabemos que ela era toda de Deus, porque o Anjo Gabriel a chamou de "cheia de graça" (Lc 1,28), ou seja, totalmente possuída por Deus. O Anjo reforçou a afirmação, dizendo logo em seguida: "O Senhor está contigo". Se não bastasse, temos uma explícita consagração na resposta de Maria: "Sou a serva do Senhor. Aconteça comigo segundo a tua palavra" (Lc 1,38).
Quando uma criatura humana se consagra a Deus não faz outra coisa senão declarar-se serva do Senhor à inteira disposição de seu serviço, de sua vontade em todas as circunstâncias da vida, nada retendo para si nem de bens materiais nem de bens espirituais.

Observemos, no entanto, uma certeza: quando um homem ou uma mulher se consagram assim a Deus, a iniciativa não parte de sua vontade humana. Mas parte de Deus, que os inspira e os chama individualmente, deixando-lhes a liberdade de aceitar ou não o convite. A consagração, portanto, antes de ser um gesto humano, é um gesto divino que, porém, não se impõe, mas convida.
O momento da Anunciação é um belíssimo modelo de consagração.

O Arcanjo representa a iniciativa de Deus, convidando Maria para um projeto novo, um projeto divino. Maria, mesmo sem entender os caminhos por onde andaria dentro desse projeto, aceitou o convite, confiando na graça de Deus. O seu "sim" foi sua consagração, aceita de imediato por Deus que, no mesmo instante pôs em andamento seu projeto. Deus nada impõe. Ele espera que a criatura use de sua liberdade. Deus havia escolhido Maria. E como a escolhera para ser a mãe de seu Filho, a ornara com todas as graças, particularmente com o privilégio de sua concepção imaculada, isto é, isenta do pecado original, que todos herdamos de Adão e Eva. No entanto, não a forçou.

Quis uma resposta livre e responsável. E Maria a deu, entregando-se inteira e em tudo à sua vontade, ao seu plano. Sua consagração a Deus, seu sim não valeu apenas para o momento da encarnação em Nazaré (Lc 1,38), valeu para a noite de Belém (Lc 2,6), valeu para o "estava de pé" junto à cruz, no Calvário (Jo 19,25), valeu no dia de Pentecostes (At 1,14).
Maria é o modelo perfeito de uma vida consagrada. Sua resposta incondicionada ao chamado de Deus, sua absoluta fidelidade em todas as circunstâncias boas, adversas e terríveis, sua quase identificação com os passos de Cristo, fazem dela uma pessoa consagrada por excelência.
Destaco duas características da consagração. Uma delas é a disponibilidade. Deus pode fazer da pessoa consagrada o que quiser e a pessoa, embora sempre procurando compreender as exigências divinas (porque a disponibilidade não dispensa o uso da inteligência, da vontade e dos sentimentos) não deve recuar, mesmo quando a vontade misteriosa de Deus a leve ao Getsêmani ou ao Calvário. Servir a Deus nas horas boas, iluminadas de sol, não é difícil. É verdade que também nessas horas devemos servi-lo. O encontro entre Maria e Isabel, o canto do Magnificat são exemplos de momentos estupendos, fáceis, exultantes, que chamo de "horas boas". Mas não só nos momentos de primavera devemos ser fiéis à consagração. Mas também quando se faz noite, quando as decepções nos invadem que nem água suja de enchente incontrolada. A condenação, a paixão e a morte de Jesus foram para Maria desses momentos cruciais. Ela confiou contra toda esperança.

Não lhe faltou a espada a atravessar-lhe o coração (Lc 2,35). Com o mesmo sim ao Arcanjo ela respondeu ao Filho torturado. O "amém" (faça-se) de Maria amalgamou-se de tal forma ao "amém" de Deus que ninguém e nada os pôde separar (cf. Rm 8,35).
Outra característica é a gratuidade. Só pode compreender o que é a vida consagrada quem consegue alcançar a grandeza do significado da gratuidade. Desprendimento e gratuidade são as duas exigências mais difíceis do Evangelho. A gratuidade não é hábito normal da vida diária. Muito menos em nosso tempo pervadido de consumismo, o que significa viver no jogo do comprar e vender e lucrar.

A gratuidade corre por outros trilhos, que a maioria das criaturas morre sem conhecer. A pessoa consagrada nada pede em troca do serviço feito e muito menos exige. Nem pagamento. Nem aplausos. Nem recompensas. Nem gratidão. Maria viveu e serviu gratuitamente e na obscuridade da vida social. Ninguém sabe ao certo onde e quando nasceu. Ninguém anotou onde e quando morreu. No entanto, todos sabemos que ela passou, como Jesus, fazendo o bem (cf. At 10,38) e continua ainda hoje sendo a mãe solícita da comunidade cristã e modelo perfeito de consagração a Deus.

Maria no Renovamento Carismático


Maria no Renovamento Carismático


A Virgem estava presente no cenáculo (At. 1,14). Lucas menciona-a explicitamente na comunidade reunida no cenáculo: a única que ele nomeia pessoalmente junto dos Doze, a única "entre as mulheres" (Lc. 1,42).
1. Maria é o modelo da Igreja na sua receptividade ao Espírito Santo, que projeta Cristo no povo de Deus. Este papel de protótipo impõe-se numa comparação: Lucas, historiador do nascimento da Igreja, nos Atos 1-2, é também o evangelista do nascimento de Cristo em Lc 1-2. Ele apresenta aí a Anunciação como um proto-pentecostes, o Pentecostes de Maria.

Os termos que ele emprega para caracterizar os dois acontecimentos são idênticos: "O Espírito Santo descerá sobre vós" (At.1,8).
Será isto intencional? Mais profundamente, é estrutural.

A vinda do Espírito suscita o mesmo arrebatamento: visitação para Maria, missão dos Apóstolos nos Atos. Em ambas as narrações, as personalidades saem do lugar fechado onde se realizou a manifestação do Espírito: a casa de Maria (Lc.1,28) e a casa do Pentecostes (At 1,13;2,2). Em ambos os casos, a vinda do Espírito é seguida de um testemunho à base de louvor: o Magnificat (Lc.1,46-56), e a explosão de louvor dos discípulos enfrentando a multidão (At.2,4-13).
A comparação não é, portanto, artificial. Maria é o protótipo da Igreja na sua nova relação com o Espírito Santo, para a interiorização de Cristo e o seu nascimento no mundo.
2. É Maria glossólalia (pessoa que reza em línguas)?Maria é, neste sentido, o protótipo, não só dos carismas em geral, mas também da oração em línguas que caracteriza o Movimento do Pentecostes. Onde Lucas diz: "TODOS ... começaram a falar noutras línguas", pode-se objetar a sua tendência para a generalização, ao empregar liricamente esta palavra: "todos". Contudo, no grupo mencionado em Atos 1,13-14, Maria é a única personagem nomeadamente designada com os Apóstolos. Ela aparece, portanto, implicada em primeiro plano nesta oração de louvor coletiva (At 2,4-13) bem distinta da exortação de Pedro (2,14-36).
3. Será ela também profeta ?O que confirma e precisa esta conclusão é que Lucas, autor do Evangelho da infância e dos Atos 1-2, manifesta Maria no exercício do carisma da profecia: quando ela canta o Magnificat (Lucas 1,46-56), precisamente depois da efusão do Espírito que "desceu sobre ela". É de sublinhar que se trata de uma profecia tecida de expressões Bíblicas, análoga ao tipo de profecias que renascem hoje e que são também poemas à base do louvor.
Em resumo, o importante é que Maria é o protótipo da Igreja, e mais especialmente o modelo na sua relação com o Espírito e do impulso carismático de toda a vida eclesial, posta em evidência pela teologia pós-conciliar.
O Renovamento do Pentecostes reencontra também a Virgem Maria, como modelo pneumatológico e carismático, como profeta e glossólalia, numa confirmação da mesma certeza: a Virgem Maria tem um lugar, discreto sem dúvida, mas importante, incontestável, nas fundações do cristianismo e na Comunhão dos Santos.Maria exclamou :
"A minha alma glorifica o Senhor, e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humilde condição da sua serva.De fato, desde agora todas as gerações me chamarão ditosa, porque me fez grandes coisas o Onipotente.É Santo o Seu nome e a Sua misericórdia vai de geração em geração para aqueles que O temem .... (Lc. 1,46-50)

Maio – Mês de Maria – Mês de Amor


Maio – Mês de Maria – Mês de Amor


Jesus na Sua agonia quis entregar-nos como filhos a Maria, Sua Mãe.

Ele sabia que fracos como somos, precisaríamos sempre de uma poderosa intercessão junto dEle e também, que seria preciso alguém como nós, para nos chamar ao caminho e avisar permanentemente das nossas fraquezas, dos nossos defeitos, das nossas distrações, da nossa falta de tempo para a oração.

Por isso, logo nesse momento, Jesus, quis deixar-nos como mãe a Sua Mãe, sabendo já que ao longo dos anos A iria enviar ao mundo, para nos avisar e exortar à oração, à piedade, à conversão.Sabendo e conhecendo o coração de mãe e o coração de Sua Mãe, sabia perfeitamente que ao entregar-nos como filhos a Maria, Esta nunca mais deixaria passar um momento que fosse, sem que intercedesse por nós, colocando-nos permanentemente frente ao Seu amor e à Sua misericórdia.

Jesus conhecia já, que a Mãe Lhe iria pedir para visitar os Seus filhos, para os acompanhar e avisar dos perigos e obstáculos dos caminhos do mundo.

Sabia bem que a todos Ela estenderia a Sua mão e a todos mostraria o Seu Filho Salvador, na esperança eterna que nem um só dos seus filhos se perdesse.Jesus conhecia aquele amor de Mãe e sabia que esse amor era inesgotável, pois tinha nascido dEle próprio.

Conhecia Sua Mãe e por isso, sabia que Ela se entregaria totalmente aos Seus filhos, se entregaria totalmente à humanidade, como no momento em que sabendo Sua prima Isabel grávida, tudo tinha deixado para a ir ajudar e servir.

Ah, Aquela Sua Mãe!!!

Jesus via nitidamente todas as lágrimas que Ela iria chorar por aqueles Seus filhos perdidos nas suas fraquezas.

E Ele não resistia às lágrimas de Sua Mãe!!!Por isso lhe disse: «Mãe, entrego-te todos como teus filhos e dou-te um coração imenso onde todos caberão, todos os dias».

Maria então abriu os braços e disse: «Vinde a mim meus filhos, encostai-vos ao meu peito. Se estiverdes comigo, estareis sempre com Jesus, porque eu nunca largo a Sua mão, nem mesmo quando desço ao mundo para vos avisar que se vos afastardes do caminho, vos afastais de Jesus, vos afastais do meu regaço e assim me é mais difícil proteger-vos daquele que vos quer perder».

E assim todos os dias sorrindo, Ela olha para Jesus e diz-Lhe: «Vê como são bonitos, vê como Te desejam tanto, mas são tão fracos.

Meu Jesus adorado, não olhes às suas fraquezas, mas apenas ao Teu amor e tem misericórdia dos meus filhos».

O Rosário é a Oração da Paz


O Rosário é a Oração da Paz


As dificuldades que o horizonte mundial apresenta, neste início de novo milênio, levam-nos a pensar que só uma intervenção do Alto, capaz de orientar os corações daqueles que vivem em situações de conflito e de quantos regem os destinos das Nações, permite esperar num futuro menos sombrio.O Rosário é, por natureza, uma oração orientada para a paz, precisamente porque consiste na contemplação de Cristo, Príncipe da paz e « nossa paz » (Ef 2, 14).

Quem assimila o mistério de Cristo – e o Rosário visa isto mesmo – apreende o segredo da paz e dele faz um projeto de vida. Além disso, devido ao seu caráter meditativo com a serena sucessão das “Ave Marias”, exerce uma ação pacificadora sobre quem o reza, predispondo-o a receber e experimentar no mais fundo de si mesmo e a espalhar ao seu redor aquela paz verdadeira que é um dom especial do Ressuscitado (cf. Jo 14, 27; 20, 21).Depois, o Rosário é oração de paz também pelos frutos de caridade que produz. Se for recitado devidamente como verdadeira oração meditativa, ao facilitar o encontro com Cristo nos mistérios não pode deixar de mostrar também o rosto de Cristo nos irmãos, sobretudo nos que mais sofrem.

Como seria possível fixar nos mistérios gozosos o mistério do Menino nascido em Belém, sem sentir o desejo de acolher, defender e promover a vida, preocupando-se com o sofrimento das crianças nas diversas partes do mundo? Como se poderia seguir os passos de Cristo revelador, nos mistérios da luz, sem se empenhar a testemunhar as suas “bem-aventuranças” na vida diária? E como contemplar a Cristo carregado com a cruz ou crucificado, sem sentir a necessidade de se fazer seu “cireneu” em cada irmão abatido pela dor ou esmagado pelo desespero?

Enfim, como se poderia fixar os olhos na glória de Cristo ressuscitado e em Maria coroada Rainha, sem desejar tornar este mundo mais belo, mais justo, mais conforme ao desígnio de Deus?Em suma o Rosário, ao mesmo tempo em que nos leva a fixar os olhos em Cristo, torna-nos também construtores da paz no mundo. Pelas suas características de petição insistente e comunitária, em sintonia com o convite de Cristo para « orar sempre, sem desfalecer » (Lc 18, 1), aquele permite-nos esperar que, também hoje, se possa vencer uma “batalha” tão difícil como é a da paz. Longe de constituir uma fuga dos problemas do mundo, o Rosário leva-nos assim a vê-los com olhar responsável e generoso, e alcança-nos a força de voltar para eles com a certeza da ajuda de Deus e o firme propósito de testemunhar em todas as circunstâncias « a caridade, que é o vínculo da perfeição » (Col 3, 14).

Configurar-se a Cristo com Maria


Configurar-se a Cristo com Maria


A espiritualidade cristã tem como seu caráter qualificador o empenho do discípulo em configurar-se sempre mais com o seu Mestre (cf. Rom 8, 29; Fil 3, 10.21). A efusão do Espírito no Batismo introduz o crente como ramo na videira que é Cristo (cf. Jo 15, 5), constitui-o membro do seu Corpo místico (cf. 1 Cor 12, 12; Rom 12, 5).

Mas a esta unidade inicial, deve corresponder um caminho de assimilação progressiva a Ele que oriente sempre mais o comportamento do discípulo conforme a “lógica” de Cristo: « Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus » (Fil 2, 5).

É necessário, segundo as palavras do Apóstolo, « revestir-se de Cristo » (Rom 13, 14; Gal 3, 27).No itinerário espiritual do Rosário, fundado na incessante contemplação – em companhia de Maria – do rosto de Cristo, este ideal exigente de configuração com Ele alcança-se através do trato, podemos dizer, “amistoso”.

Este introduz-nos de modo natural na vida de Cristo e como que faz-nos “respirar” os seus sentimentos.A este respeito diz o Beato Bártolo Longo: «Tal como dois amigos, que se encontram constantemente, costumam configurar-se até mesmo nos hábitos, assim também nós, conversando familiarmente com Jesus e a Virgem, ao meditar os mistérios do Rosário, vivendo unidos uma mesma vida pela Comunhão, podemos vir a ser, por quanto possível à nossa pequenez, semelhantes a Eles, e aprender destes supremos modelos à vida humilde, pobre, escondida, paciente e perfeita».Neste processo de configuração a Cristo no Rosário, confiamo-nos, de modo particular, à ação maternal da Virgem Santa.

Aquela que é Mãe de Cristo, pertence Ela mesma à Igreja como seu «membro eminente e inteiramente singular» sendo, ao mesmo tempo, a “Mãe da Igreja”. Como tal, “gera” continuamente filhos para o Corpo místico do Filho. Fá-lo mediante a intercessão, implorando para eles a efusão inesgotável do Espírito.

Ela é o perfeito ícone da maternidade da Igreja.O Rosário transporta-nos misticamente para junto de Maria dedicada a acompanhar o crescimento humano de Cristo na casa de Nazaré. Isto lhe permite educar-nos e plasmar-nos, com a mesma solicitude, até que Cristo esteja formado em nós plenamente (cf. Gal 4, 19). Esta ação de Maria, totalmente fundada sobre a de Cristo e a esta radicalmente subordinada, « não impede minimamente a união imediata dos crentes com Cristo, antes a facilita ». É o princípio luminoso expresso pelo Concílio Vaticano II, que provei com tanta força na minha vida, colocando-o na base do meu lema episcopal: Totus tuus. Um lema, como é sabido, inspirado na doutrina de S.Luís Maria Grignion de Montfort, que assim explica o papel de Maria no processo de configuração a Cristo de cada um de nós: “Toda a nossa perfeição consiste em sermos configurados, unidos e consagrados a Jesus Cristo. Portanto, a mais perfeita de todas as devoções é incontestavelmente aquela que nos configura, une e consagra mais perfeitamente a Jesus Cristo.Ora, sendo Maria entre todas as criaturas a mais configurada a Jesus Cristo, daí se conclui que de todas as devoções, a que melhor consagra e configura uma alma a Nosso Senhor é a devoção a Maria, sua santa Mãe; e quanto mais uma alma for consagrada a Maria, tanto mais será a Jesus Cristo”.

Nunca como no Rosário o caminho de Cristo e o de Maria aparecem unidos tão profundamente. Maria só vive em Cristo e em função de Cristo!

O “Magnificat” da Igreja peregrina

O “Magnificat” da Igreja peregrina

Na fase atual da sua caminhada, a Igreja procura reencontrar a união de todos os que professam a própria fé em Cristo, para manifestar a obediência ao seu Senhor que orou por esta unidade, antes do seu eminente sacrifício. Vai avançando na «sua peregrinação... e anunciando a paixão e a morte do Senhor até que Ele venha» (CONC. ECUM. VATICANO II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen Gentium.8).
«Prosseguindo entre as tentações e tribulações da caminhada, a Igreja é apoiada pela força da graça de Deus, que lhe foi prometida pelo Senhor, para que não se afaste por causa da fraqueza humana, da perfeita fidelidade, mas permaneça digna esposa do seu Senhor e, com auxílio do Espírito Santo, não cesse de se renovar a si própria até que, pela Cruz, chegue à luz que não conhece ocaso» (CONC. ECUM. VATICANO II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen Gentium.9).
A Virgem Maria está constantemente presente nessa caminhada de fé do Povo de Deus em direção à luz. Demonstra-o de modo especial o cântico do «Magnificat», que, tendo brotado da profundidade da fé de Maria na Visitação, não cessa de vibrar no coração da Igreja ao longo dos séculos. Prova-o a sua recitação quotidiana na liturgia das Vésperas e em muitos outros momentos de devoção, quer pessoal, quer comunitária.
«A minha alma glorifica o Senhore o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.Porque pôs os olhos na humildade da sua serva:de hoje em diante me chamarão bem-aventuradatodas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:Santo é o seu nome.O seu amor se estende de geração em geraçãosobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braçoe dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronosE exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bensE aos ricos despediu de mãos vazias.Acolheu a Israel, seu servo,Lembrado de sua misericórdia,como tinha prometido a nossos pais,a Abraão e à sua descendência para sempre” (Lc 1, 46-55)

Maria, modelo da fecundidade da Virgem-Igreja


Maria, modelo da fecundidade da Virgem-Igreja


Maria é a Virgem que sabe ouvir; que acolhe a palavra de Deus com fé; fé, que foi para Ela prelúdio e caminho para a maternidade divina, pois, como teve a intuição Santo Agostinho, «a bem-aventurada Maria, acreditando deu à luz Aquele (Jesus) que, acreditando, concebera»; na verdade, recebida do Anjo a resposta à sua dúvida (cf. Lc 1, 34-37), «Ela, cheia de fé e concebendo Cristo na sua mente, antes de O conceber no seu seio, disse - «Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra “(Lc 1, 38); fé, ainda, que foi para Ela motivo de beatitude e de segurança no cumprimento da promessa - «e ditosa aquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor» (Lc 1, 45); fé, enfim, com a qual Ela, protagonista e testemunha singular da Encarnação, reconsiderava os acontecimentos da infância de Cristo, confrontando-os entre si, no íntimo do seu coração (cf. Lc 2, 19.51).É isto que também a Igreja faz; na sagrada Liturgia, sobretudo, ela escuta com fé, acolhe, proclama e venera a Palavra de Deus, distribui-a aos fiéis como pão de vida, à luz da mesma, perscruta os sinais dos tempos, interpreta e vive os acontecimentos da história.Maria é, depois, a Virgem-Mãe, isto é, Aquela que «pela sua fé e obediência, gerou na terra o próprio Filho de Deus Pai, sem ter conhecido varão, por obra e graça do Espírito Santo».

Maternidade prodigiosa, constituída por Deus protótipo e modelo da fecundidade da Virgem-Igreja, a qual, por sua vez, «se torna também mãe, dado que, com a pregação e com o batismo gera, para vida nova e imortal, os filhos concebidos por ação do Espírito Santo e nascidos de Deus».

Com justeza, portanto, os antigos Padres ensinavam que a Igreja prolonga no sacramento do Batismo a maternidade virginal de Maria. De entre os testemunhos destes Padres, apraz-nos recordar o do nosso ilustre predecessor, São Leão Magno, que, numa homilia natalícia, afirmava:

«A origem que (Cristo) assumiu no seio da Virgem (Maria), coloca-a Ele na fonte do batismo: conferiu à água aquilo que deu à Mãe; com efeito, a virtude do Altíssimo e a sombra do Espírito Santo (cf. Lc 1, 35), que fizeram com que Maria desse à luz o Salvador, são o mesmo que faz com que a ablução regenere aquele que crê». E se quisermos referir ainda fontes litúrgicas, poderemos citar a bela «illatio» da Liturgia hispânica: «Aquela (Maria) trouxe no seu seio a Vida; esta (Igreja) trá-la no banho batismal. Nos membros d' Aquela Cristo foi plasmado; nas águas desta Cristo foi revestido».